Berço de Macunaíma, em Araraquara, é preservado como Centro Cultural

Entregue à Unesp, a antiga Chácara Sapucaia abriga acervo que registra evolução da ciência na região desde a década de 20

Situado no bairro do Carmo, em Araraquara, numa área verde de 13 mil metros quadrados, repleta de árvores centenárias com mais de setenta espécies frutíferas e ornamentais, o Centro Cultural Professor Waldemar Saffioti (CCPWS) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) é muito mais do que o local onde Mário de Andrade se acomodou para, em seis dias, escrever Macunaíma, obra-prima do modernismo brasileiro.

A Chácara Sapucaia, antiga morada do casal Waldemar e Heleieth Saffioti, ex-docentes da Unesp, foi doada à universidade em 2001. Depois do falecimento do marido, Heleieth cedeu a propriedade com a condição de que a área fosse transformada em centro cultural e passasse a oferecer serviços de extensão universitária para jovens de 14 a 25 anos.

Na doação, Heleieth incluiu também o arquivo pessoal do marido, que dá nome ao centro. Dele constam documentos acadêmicos, científicos e políticos, fotos, revistas, teses, artigos e recortes de jornais a partir dos anos 20, que ilustram a evolução da ciência na região de Araraquara.

Organização

Orlene Capaldo, docente aposentada da Unesp e membro do Conselho Provisório designado pela reitoria para gerir o CCPWS, conta que está sendo preparado o processo de institucionalização do centro. A iniciativa tem o apoio da Pró-Reitoria de Extensão Universitária (Proex) e está sendo organizado em três núcleos, para permitir, no futuro, a expansão dos serviços prestados. Foram definidos o Núcleo de Ensino Pré-Universitário, o de Cultura Plural e o de Documentação e Memória, que abrigará as coleções do professor Saffioti e o acervo histórico da Unesp em Araraquara.

Os serviços a serem prestados pelo CCPWS são coordenados por professores do câmpus da Unesp. Os destaques são o projeto “História da Ciência e da Universidade no Interior Paulista”, da docente Rosa Souza; a construção da sede do cursinho pré-vestibular gratuito do câmpus de Araraquara (Cuca); a oficina de vidros, coordenada pelo professor Miguel Jafelicci Júnior; o Centro de Estudos Indígenas (Ceimam), comandado pela professora Sílvia Carvalho; o Projeto de Cidadania Ambiental, dirigido pelo professor Luís Sacramento, que trabalha atualmente com cultivo de horta de plantas medicinais e aromáticas; o Projeto Viver Bem, que promove a melhoria da qualidade de vida como estratégia de redução de danos, das professoras Sílvia Fernandes e Mírian Onofre, e o projeto “Ensinando com arte e aprendendo com o trabalho”, desenvolvido por Neusa Barcelos.

Desafio

Orlene conta que o maior desafio encontrado para a efetivação das propostas do centro tem sido encontrar parceiros privados para financiar as obras e projetos. “Muitas das iniciativas propostas pelo centro, têm apelo social. Aqui os jovens carentes poderão se especializar de modo interdisciplinar, nas oficinas artísticas, de vidro e se encaminhar para uma profissão, longe das drogas e da delinquência”. E lembra que o trabalho dos professores e funcionários no centro é voluntário.

Revitalização e visitas

A revitalização do conjunto arquitetônico é um serviço também voluntário do arquiteto araraquarense Paulo Pires Lima. “A antiga Chácara Sapucaia tem arquitetura notável e edifícios de grande valor histórico, literário, educacional e científico para o município. Procurei, de forma harmoniosa, adaptar a área às necessidades do centro cultural e manter o desenho paisagístico original, traçando um diálogo entre o antigo e o novo”, relata.

As visitas ao centro são monitoradas e podem ser agendadas no horário comercial para escolas da rede pública. Embora em fase inicial de organização, o acervo já pode ser utilizado para consultas. A pesquisadora Nívia de Paulli utiliza atualmente os documentos como fonte para sua tese de doutorado.

Mário de Andrade e Araraquara

Macunaíma, o herói sem nenhum caráter foi escrito na chácara de Pio Lourenço, benfeitor de Araraquara, em uma semana de rede e muito cigarro, de 16 a 23 de dezembro de 1926. Nascido em 1893, Mário na infância juntava-se periodicamente na capital aos seus primos araraquarenses, da família de Cândido Lourenço Corrêa da Rocha, marido de sua tia Isabel.

O escritor esteve várias vezes na Chácara Sapucaia que hoje abriga o centro cultural. Em algumas, para se recuperar de crises emocionais, como a perda de seu irmão Renato em 1913, e em outras, para passar férias, como em 1926, quando redigiu a rapsódia transformada no livro Macunaíma. Ao completar 40 anos, Mário sofreu séria crise de depressão. Com fases mais brandas ou profundas, a doença acompanhou-o até o fim de sua vida. Enfermo, sempre recorreu às temporadas em Sapucaia.

Foi membro ativo de uma renovação estética e ideológica, buscava na mudança e na transição argumentos destacáveis para sua eterna luta: a da recuperação do sentido de “ser brasileiro”. Sua figura representa, até hoje, o grande questionador da cultura e da arte que estavam alimentando o Brasil do início do século 20. Com Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, Mário foi um dos mais fortes defensores da cultura do povo brasileiro e de seu resgate, enfatizando o retorno às origens, sem perder de vista as influências estrangeiras.

Serviço

Centro Cultural Professor Waldemar Saffioti
Correio eletrônico: ccpws@iq.unesp.br
Rua dos Libaneses, 1111 – Carmo
CEP 14800-165 – Araraquara (SP)
Tel. (16) 3332-1505

Rogério Mascia Silveira (texto e fotos)
Da Agência Imprensa Oficial

Reportagem publicada originalmente na página IV do Poder Executivo I e II do Diário Oficial do Estado de SP do dia 21/01/2004. (PDF)

Corredor São Mateus-Jabaquara inspira novo modelo de transporte sobre pneus

Sistema intermediário entre Metrô e ônibus trafega na superfície com capacidade para cerca de 200 mil passageiros por dia; corredor atende aos municípios de São Paulo, Mauá, Santo André, São Bernardo do Campo e Diadema

A Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP) escolheu o Corredor Metropolitano São Mateus-Jabaquara como uma das referências para os estudos que decidirão os rumos do Transporte Expresso Urbano (TEU), novo modelo de transporte sobre pneus que será desenvolvido inicialmente na Grande São Paulo. Os estudos serão patrocinados pela The William and Flora Hewlett Foundation, organização não-governamental dedicada às causas ambientais.

O protocolo de intenções para o desenvolvimento do TEU foi assinado pela ANTP, Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos (EMTU) e São Paulo Transporte (SPTrans), durante o 14º Congresso Brasileiro de Transporte e Trânsito, realizado em Vitória (ES) no mês de outubro. A ideia é que o projeto resulte em um novo e avançado conceito de corredor de ônibus a ser desenvolvido na Região Metropolitana de São Paulo.

Joaquim Lopes, presidente da EMTU, conta que o TEU terá bilhetagem com cartões inteligentes (smart cards), controle operacional por satélite e computadores embarcados nos veículos. “Além da série de inovações tecnológicas que elevam sua capacidade de transporte para 25 mil passageiros por hora, outro aspecto importante é o custo de construção, pois o quilômetro da linha custa cinco vezes menos do que uma linha subterrânea de metrô”, explica.

Sem cicatrizes

Lopes explica que as linhas do TEU serão construídas de acordo com o projeto original de cada cidade. “A preocupação é integrar por completo o novo sistema à mancha urbana com tratamento paisagístico adequado no entorno do traçado e das estações”, explica. “Questões como poluição sonora e emissão de gases estão sendo consideradas”.

As necessidades dos portadores de deficiências estão também na pauta. “Fizemos testes no ano passado, com veículos dotados de um sistema de amortecedores que abaixa o veículo até o nível do solo nos pontos de paradas. Assim, idosos, gestantes e pessoas com crianças no colo não terão dificuldade para embarcar e desembarcar”, conclui. O TEU será integrado com outros modais como o Metrô e trens metropolitanos para favorecer os deslocamentos da população.

Fonte de inspiração

O Corredor Metropolitano São Mateus-Jabaquara, gerenciado pela EMTU, na capital, transporta diariamente 200 mil passageiros nos seus 33 quilômetros de extensão. Em pesquisa realizada em maio, a Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP) obteve 90% de conceitos ótimo e bom entre os usuários dos ônibus.

Construído há 15 anos, esse tipo de transporte passou à iniciativa privada em 1997, quando o Consórcio Metra assumiu a operação e manutenção do sistema, mediante concessão de 20 anos. Ele é referência nacional e internacional para o desenvolvimento de projetos de racionalização da operação do transporte sobre pneus.

O Corredor atende aos municípios de São Paulo, Mauá, Santo André, São Bernardo do Campo e Diadema. Opera 11 linhas de ônibus que transportam em média 5 milhões de usuários/mês. Dispõe de nove terminais que se integram com linhas municipais, sistemas metroviário e ferroviário. Esse sistema serve de laboratório para testes com novas tecnologias, principalmente aquelas que buscam a qualidade do meio ambiente como a operação experimental dos ônibus híbridos (diesel-elétricos) e o desenvolvimento do ônibus movido a Célula de Combustível a Hidrogênio.

O projeto da EMTU, desenvolvido em conjunto com o Ministério das Minas e Energia e outras empresas ligadas ao setor energético, é patrocinado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e coloca o Brasil em posição de destaque no cenário da evolução dessa tecnologia, por servir de referência em outros países como México, China, Índia e Egito.

Rogério Mascia Silveira
Da Agência Imprensa Oficial

Reportagem publicada originalmente na página IV do Poder Executivo I e II do Diário Oficial do Estado de SP do dia 22/11/2003. (PDF)

Saúde mental é tema de mostra de artes e cinema na USP-Ribeirão Preto

A Liga de Saúde Mental do Centro Acadêmico Rocha Lima da USP, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, promove Mostra de Artes e Saúde Mental a partir de sexta-feira até o dia 1º. Serão exibidos longas-metragens que abordam distúrbios mentais e curtas nacionais de não-ficção, que retratam experiências com doentes.

A mostra é dirigida a profissionais e estudantes da área e a interessados no tema saúde mental. O programa inclui palestras, exposição de trabalhos artísticos realizados por pacientes e oficinas terapêuticas (workshops) de biodança, teatro, musicoterapia e pintura, oferecidas por profissionais que explicarão as bases do trabalho no contexto da saúde mental.

As sessões de cinema são grátis e a participação nas oficinas custa R$ 12, com direito a três coffee-breaks. Os filmes serão projetados no Centro de Educação e Aperfeiçoamento Profissional em Saúde (Ceaps) do Hospital das Clínicas (HC) da FMRP, em Ribeirão Preto. O endereço é Avenida Bandeirantes, 3.900 – Cidade Universitária – Ribeirão Preto.

Programação

Na sexta-feira, às 21h15, serão apresentados Ulisses, O Herói Seduzido, do diretor Sérgio Penna, e A Soltura do Louco, de Bernardo de Castro. Dia 1º, às 10 horas, o público poderá conferir Spider: Desafie sua Mente, de David Cronenberg, e às 14 horas o filme é Frida, de Julie Taymor.

Antecedendo à Mostra de Artes e Saúde Mental, nos novos anfiteatros da FMRP haverá a exibição, também gratuita, de filmes relacionados à saúde mental. Quinta-feira, às 12 horas, será apresentado O Quarto do Filho, de Nanni Moretti, e às 20 horas, O Clube da Luta, de David Fincher. No dia 30, às 12 horas, será exibido Réquiem para um Sonho, de Darren Aronofsky, e às 20 horas, A Professora de Piano, de Michael Haneke. No dia 31, às 12 horas, o filme é Bicho de 7 Cabeças, de Laís Bodanzky.

Rogério Mascia Silveira
Da Agência Imprensa Oficial

Reportagem publicada originalmente na página IV do Poder Executivo I e II do Diário Oficial do Estado de SP do dia 29/10/2003. (PDF)