Pesca reduz 50% da população do peixe-batata na costa do RJ até SC

Extração está superando a capacidade de recuperação da espécie

A pesca é a causa da redução em 50% da população do peixe-batata (Lopholatilus villarii). Essa é a confirmação do estudo feito pelo biólogo Antônio Olinto Ávila da Silva, do Instituto de Pesca, ligado à Secretaria de Estado da Agricultura e Abastecimento. A pesquisa foi realizada entre 1995 e 1999 e analisou o trecho compreendido entre o norte do Rio de Janeiro (paralelo 22º) e o norte de Santa Catarina (28º).

Na pesquisa, foram mapeadas e catalogadas as espécies como o peixe-batata, que habitam a faixa entre 100 e 500 metros de profundidade. Ele integra uma categoria de alto valor comercial. É importante na cadeia alimentar marinha por estar presente em grande extensão no litoral brasileiro.

O estudo registrou também a evolução da pesca oceânica no País na década de 90. Deixou de ser artesanal para ser mecanizada. Profundidades de até 500 metros passaram a ser atingidas e a quantidade do pescado começou a decrescer progressivamente. Entre as décadas de 70 e 90, caiu 75%, de quatro mil para mil toneladas anuais. “A intensidade de extração está superando a capacidade de recuperação das populações”, observa Olinto.

Expedições de coleta

A atividade pesqueira impacta as espécies com ciclo de vida mais longo. O peixe-batata pode viver até 40 anos, porém não consegue atingir idades elevadas. “A primeira reprodução é tardia, pois só ocorre aos seis anos, fator que retarda a recomposição da população. E o hábitat da espécie é bem conhecido dos pescadores, tornando-o mais suscetível às capturas.”

O Instituto de Pesca realizou mais de 300 operações de coleta. Capturou, entre 1995 e 1997, 58 mil unidades de 43 espécies. O trabalho permitiu a análise do histórico da exploração pesqueira e a confecção de um mapa de atuação dos barcos de exploração comercial.

Olinto avalia que a fiscalização da pesca é falha e as licenças para a atividade são amplas. “É necessário rever os critérios de permissão, com a criação de restrições. O ideal é analisar a área de atuação da embarcação, o modo como a pesca se dá e a relação de espécies autorizadas para a captura.” Ele sugere a instalação de sistemas de rastreamento por satélite nos barcos da frota nacional, para permitir um monitoramento já obrigatório em embarcações estrangeiras arrendadas.

Harém de fêmeas

A recuperação da população do peixe-batata exige mais do que um período anual de proibição para a procriação da espécie, como é feito com camarões e sardinhas. “Faz-se necessário manter a estrutura etária da população e a proporção entre os sexos, além da disponibilidade de alimento.”

Estudos com o peixe-batata do Atlântico Norte (Lopholatilus chamaeleonticeps) mostraram que um macho adulto mantém um harém com várias fêmeas e tem um território delimitado. A sua captura desestrutura a organização social, que só será restaurada com a chegada de outro exemplar do sexo masculino.

A alternativa é criar áreas de pesca proibida. “Elas funcionariam como santuários ecológicos marinhos, onde as espécies poderiam se recompor. Essas mudanças são necessárias para garantir a existência das variedades e manter a atividade pesqueira, tornando-a economicamente interessante”, conclui.

Conheça o peixe-batata

O peixe-batata mede em média 1,2 metro e tem peso que varia entre 15 e 20 quilos. Embora seu nome seja desconhecido entre os consumidores, ele é bastante consumido em peixarias e restaurantes, que o servem como se fosse o namorado, espécie mais conhecida. De sabor excelente e carne clara, custa de R$ 4 a R$ 8 o quilo e é considerado, junto com o cherne, linguado e namorado, produtos de primeira linha.

Rogério Mascia Silveira
Da Agência Imprensa Oficial e Agência USP de Notícias

Reportagem publicada originalmente na página I do Poder Executivo I e II do Diário Oficial do Estado de SP do dia 1º/03/2003. (PDF)

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